Quem é o Prof. Wilian Cardoso?

Formado em Teologia e Filosofia, Wilian Cardoso é Mestre em Interpretação Bíblica pela FADBA e Mestre em Arqueologia pela Universidade Hebraica. Trabalha como professor de línguas bíblicas no Instituto de Estudos Bíblicos de Israel e Egiptologia na pós-graduação do Unasp.

O Nome de Deus

Para os egípcios, a vida na Terra era apenas uma preparação para a verdadeira vida após a morte. Eles tinham uma crença complexa sobre múltiplas “almas” – entre três e nove – e, surpreendentemente, o nome de uma pessoa era considerado uma dessas almas. Acreditava-se que, se uma alma fosse destruída, as demais pereceriam. Por isso, manter o nome vivo, pronunciado e inscrito (como nos cartuchos dos faraós), era vital para a existência no pós-vida. Havia até uma lenda sobre Ísis ganhando poder ao descobrir o nome secreto do deus Rá.

Diante desse contexto é que Moisés, ao perguntar o nome de Deus, poderia estar imbuído dessa mentalidade egípcia: buscando um “nome” para obter poder ou controle sobre a divindade. No entanto, Deus não respondeu com um nome no sentido egípcio. Ele se revelou como “Eu Sou o que Sou”. Isso não é um substantivo, mas um verbo em hebraico, que denota uma característica, uma essência. A letra inicial em hebraico para “Eu Sou” (Aleph) difere da letra para “Ele é” (Yod), e Moisés, ao escrever, usou a forma “Ele é”. Isso aponta para uma verdade profunda: Deus não nos deu um nome para ser manipulado, mas uma revelação de Sua essência.

Essa essência implica eternidade: “Eu sou, eu fui, eu serei”. Deus é Aquele que existia antes de tudo e continuará existindo, mesmo que tudo deixe de existir. Ele é o Criador, não uma criatura, e isso o diferencia de todas as divindades antigas, que eram criadas. Essa é uma ideia revolucionária que coloca Deus para além da nossa compreensão humana.

Quanto a questão da não-pronunciação do nome de Deus na tradição judaica. Acredito que isso não remonta ao tempo de Moisés, mas é uma prática pós-exílica, surgida de um radicalismo zeloso para não transgredir o terceiro mandamento. No entanto, o verbo hebraico traduzido domo “tomar” no mandamento (Ex 20:7) significa “carregar”. O mandamento, na verdade, significa não “levar o nome de Deus em vão”, ou seja, viver uma vida que não corresponde à proclamação de ser seu seguidor, ou fazer promessas em Seu nome sem cumpri-las. A pronúncia correta de YHWH, infelizmente, se perdeu na história devido à ausência de vogais no hebraico original e à decisão posterior dos escribas de não inseri-las no nome divino.

Finalmente, o maior desafio de Moisés: tirar a cultura egípcia de dentro do povo de Israel. Desde o maná (para ensinar o sábado) até o bezerro de ouro (a tentativa de dar uma imagem a um Deus invisível), Deus estava persistentemente desconstruindo a mentalidade egípcia. Ele queria que entendêssemos que Ele é diferente, extraordinário, além de qualquer imagem ou conceito humano, e que Sua confiabilidade reside justamente em Sua soberana singularidade.

Veja um vídeo com o outro autor do livro, Dr. Rodrigo Silva, falando sobre o Egito. Assista → aqui.