Pr. Jafé Chaves, 20 jan. 2026
A palavra testamento vem para o português do latim testamentum mas o sentido é o do grego diathéke e significa aliança[1]. No AT a palavra é berith e tem o mesmo significado. Séculos antes de Cristo, o profeta Jeremias preparou o povo para uma “nova aliança” (Jr 31:31-33) e os autores do NT viram em Cristo e na proclamação do evangelho o cumprimento dessa profecia (Mt 26:28; Gl 3:15-17; Hb 9:12-18; 2Co 3:14). Fato é que a partir de meados do séc. II a comunidade cristã já chamava de Novo Testamento os escritos que compreendia como canônicos. Reconhecia também ser um desdobramento da antiga ou primeira aliança. Velho Testamento não é um demérito, apenas uma classificação no tempo do plano da redenção.
Logo depois do Pentecostes, quando os discípulos começaram a pregar sistematicamente, os textos do Antigo Testamento eram a base e os relatos da vida de Cristo, transmitidos pelo que podemos chamar de uma tradição oral. Segundo a tradição judaica, quando o Senhor deu a Moisés a Torá, que posteriormente ele escreveu naquilo que ficou conhecido como “pentateuco” (os cinco primeiros livros da Bíblia) no monte Ele também recebeu as orientações necessárias para a prática da lei, chamada de Torá Oral.
Séculos depois, como resultado da dispersão judaica e frequente morte dos sábios pelos dominadores romanos, para não perder a Lei Oral, o rabino Judá HaNasi (135?-217) empreendeu esforços para escrever a tradição oral que, descrevendo de maneira resumida, ficou conhecida como Talmud.[2]
Esse histórico nos ajuda a entender que os judeus que formavam a igreja primitiva tinham familiaridade com o que podemos chamar de tradição oral do evangelho.[3] Sendo que uma história contada oralmente podia sobreviver com integridade por muito tempo, a primeira forma de circulação, estudo e pregação das boas novas de salvação foi a transmissão oral, provavelmente por quase duas décadas depois da morte de Jesus. Isso não significa que algumas formas escritas de relatos não circulavam também.[4] Aliás, os estudiosos do assunto afirmam que um relato inicial escrito serviu de base para os evangelhos. Ficou conhecido no meio teológico como “Q”, primeira letra da palavra alemã quelle, que significa “fonte”.[5] Mas não temos nenhum argumento material que valide essa teoria.
Sobre o cenário da produção dos textos do NT, Wilson Paroschi (2012, p. 84-85) descreve da seguinte forma:
Os livros do NT não foram produzidos de acordo com uma pauta editorial devidamente elaborada, por escritores sempre competentes e habilidosos ou em circunstâncias totalmente favoráveis. A situação das primeiras cópias em geral não foi muito diferente. Elas começaram a surgir de forma mais ou menos aleatória, sem coordenação ou controle e, na maioria das vezes, não tiveram a oportunidade de ter um tratamento profissional, uma edição oficial que respeitasse as formas precisas do texto. Em virtude da rápida expansão do cristianismo e a curta vida útil dos originais, as várias comunidades cristãs se viram diante da presente necessidade de reproduzir os escritos apostólicos. E por causa dos limitados recursos financeiros, elas muitas vezes tiveram de empregar copistas amadores ou quem sabe até mesmo irmãos bem-intencionados mas de pouca habilidade ortográfica. O número de pessoas realmente alfabetizadas no mundo greco-romano em geral não excedia a 10%, o que reproduzia ainda mais as chances de haver entre os membros de uma congregação local pessoas devidamente preparadas para a tarefa.
Quanto aos custos, e se fosse contratado um profissional para fazer esse trabalho? Randolph Richards, professor de teologia na Universidade de Palm Beach Atlantic, Escreveu (2004) Paulo e a Escrita de Cartas no Primeiro Século: secretárias, composição e coleção, onde aborda este assunto. Em estimativa, com base no cálculo que ele fez da carta aos Romanos, podemos concluir que o custo da produção de Marcos, nesse cenário hipotético, seria de US$ 952,00 ou R$ 5.129,09, pela cotação em 14 jan. 2006. Uma cópia deste evangelho custaria US$ 428,00 ou R$ 2.305,94, pela mesma cotação (Akin, 2016).
Sobre o reconhecimento como material canônico, podemos observar que Inácio (c. 30-35 – 107), bispo de Antioquia, em uma carta escrita a Esmirna, perto do fim de sua vida, afirmou que os hereges resistiam ao evangelho, bem como a maneira dos esmirnenses resistirem às heresias, o mesmo evangelho. Considerando a data, é bem provável que ele estivesse se referindo aos livros que contavam os relatos da vida de Jesus, que nós conhecemos e que já circulavam naquela época.
Em torno do ano 170, Taciano, o Assírio (? – 172), escreveu uma obra que ficou conhecida como Diatessaron. Foi a primeira harmonia dos evangelhos e tinha esse nome porque foi escrito com base em quatro fontes, ou seja, os quatro evangelhos. Uma década depois, aproximadamente em 180, Irineu de Lyon (c. 130 – c. 202) justificava que havia quatro evangelhos, assim como eram quatro os pontos cardeais. Embora um argumento bem criativo, deixa claro que os quatro evangelhos eram reconhecidamente autoritativos ou canônicos, já por essa época.
O fragmento Muratoriano é datado do final do séc. II e, embora não esteja completo, em sua primeira frase menciona Lucas como “o terceiro livro do evangelho”, de onde podemos concluir que ele tratava de Mateus e Marcos como os dois primeiros. Logo depois ele fala do “quarto evangelho”, de autoria de João.
Percebemos assim como logo após os escritos do último autor do NT, o apóstolo João, os escritos já formavam um corpo autoritativo para a igreja. O relato da vida de Jesus, com Seus princípios, bem como a descrição do plano da redenção, são os primeiros motivadores e maiores argumentos para a formação e consolidação da fé, desde o início, como Tenney (2008, p. 146) reconhece:
Os evangelhos demonstram que a narrativa que prega sobre a vida do senhor Jesus tornara-se um tipo aceito de evangelismo e cristalizara-se em um padrão utilizado para instrução dos crentes.
Isso não mudou e o benefício do estudo está tanto para a igreja, fortalecendo a fé dos crentes, quanto para os que estão conhecendo e descobrindo a salvação. Estudar os evangelhos não é só compreender parte da vida e dos ensinos de Jesus, é descobrir o caminho que precisamos trilhar para a vida eterna e Reino de Deus, como os primeiros cristãos logo cedo perceberam e, para nosso benefício, escreveram, copiaram e espalharam, para que todos soubessem.
Em 1776, um teólogo alemão chamado Johann Jakob Griesbach (1745-1812) classificou os três primeiros evangelhos como sinóticos – “pela mesma ótica” – considerando que são muito semelhantes na descrição do ministério de Jesus, ou como afirma Carson (1997, p. 19) “essas semelhanças, que envolvem estrutura, conteúdo e enfoque, são visíveis mesmo ao leitor desatento.” Até a sequência geográfica do ministério de Jesus é semelhante em Mateus, Marcos e Lucas, reforçando o argumento. Já o Evangelho de João segue uma estrutura bem diferente, por isso é comum que os estudiosos façam sempre uma abordagem dos três evangelistas dessa forma sinótica.
Ao que parece, as cartas paulinas logo ganharam status canônico, sendo lidas, copiadas e compartilhadas. O próprio apóstolo aconselha isso em Cl 4:16, onde ele recomenda uma troca entre as cartas das igrejas de Colosso e Laodiceia. Aland & Aland (2013, p. 53) afirmam que “foi somente por volta de 180 d.C. que… os quatro Evangelhos vistos como um conjunto de documentos salvíficos que tinham o mesmo valor, veio a ter ampla circulação e reconhecimento.” Por outro lado, Bruce (1990, p. 31) diz que logo no início do séc. II já circulavam como uma unidade integrada.
O manuscrito mais antigo disponível hoje é do evangelho de João e sua teológia é extremamente elaborada. Mateus foi, por muito tempo, o principal relato lido e estudado sobre os ensinos de Jesus. Lucas foi reconhecido como um historiador de primeira categoria – Lucas e Atos – e sobre Marcos, nos últimos 200 anos foi dado um foco tão grande em sua relevância para os sinóticos, que … Estudar os evangelhos não é ler uma biografia de Cristo, mas, à partir do relato de recortes de Sua vida e ensinos e considerando o público e cenário de cada um desses relatos, entender a boa notícia que é o desdobramento da narrativa do plano de redenção, já previsto no AT. Uma voz clamou no deserto, preparando o caminho, quatro mãos escreveram, o corpo de Cristo reconheceu como inspirados por Deus e nós podemos ler e proclamar, como boa nova de salvação.
[1] “A palavra grega para indicar aliança era sunthéke, que descrevia algum tipo de acordo entre duas partes interessadas. Mas diathékesugeria, antes, a doação dada por alguém a outro indivíduo. Todavia, em algumas ocasiões, parece que o vocábulo diathéketinha o sentido duplo de ‘testamento’ ou de ‘pacto’. Assim, Aristófanes empregou a palavra para dar a entender ‘pacto’; o autor da epístola aos Hebreus, por semelhante modo, parece usar de um jogo de palavras com o duplo sentido do vocábulo diathéke, em Hebreus 9.15-17. Por isso, alguns estudiosos pensam que a base bíblica para ‘testamento’, como designação das duas principais divisões da Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, originou-se do uso da palavra diathéke, na epístola aos Hebreus.” Champlin, 2018, p. 1724.
[2] Bleefeld e Shook, 2006:11-14.
[3] Veja detalhes em F. F. Bruce. O Cânon das Escrituras: como os livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como Escritura Sagrada? (São Paulo: Hagnos, 2011), p. 107-113.
[4] “Mas é provável que só mais tarde um período de transmissão predominantemente oral abriu espaço para um período em que começaram a ser elabora corpos mais substanciosos da tradição escrita, em um processo que acabou conduzindo aos evangelhos canônicos.” Carson, 1997:28.
[5] Tenney, 2008:153. “Pode-se dizer em relação ao documento “Q” que nenhum traço desse documento hipotético foi recuperado… Indiscutivelmente existiam, em datas bastante remotas, coleções dos ditos de Jesus, pois algumas foram recuperadas em papiros, mas não há provas convincentes da existência independente desse manuscrito obscuro.” Idem, 154.
Referências: BLEEFELD, R. B. R. & SHOOK, R. L. Parábolas del Talmud. 2 ed. Barcelona: Obelisco, 2006; BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras: como os livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como Escritura Sagrada? São Paulo: Hagnos, 2011; CARSON, D. A.; MOO, D. J.; MORRIS, L. M. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997; CHAMPLIN, Russel N. Novo Dicionário Bíblico Champlin: ampliado e atualizado. São Paulo: Hagnos, 2018; PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2012; TENNEY, Merril C. O Novo Testamento sua Origem e Análise. São Paulo: Shedd, 2008.
Referência do texto
SOUZA, Jafé C. O Evangelho: quatro pontos de vista. Pastorjafe.com, 2026. Disponível em: <https://pastorjafe.com/o-evangelho-quatro-pontos-de-vista/>. Acesso em:
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Jafé Chaves é pastor da Igreja Adventista do Sétimo dia há mais de 20 anos. Casado com a psicóloga e pedagoga Aline Damasceno e pai de Rafael, é bacharel em teologia e acadêmico de jornalismo. Recentemente tem se dedicado a publicar seus estudos dos sermões, como mais uma ferramenta kerygmática (da pregação) do evangelho.
