Jafé Chaves, 11 jan. 2026

O evangelho é o fundamento da fé cristã, mas a profundidade de seu significado vai muito além da sua tradução moderna. Para compreender plenamente a riqueza dessa “boa notícia”, é fundamental explorar suas raízes linguísticas e teológicas. Não vamos mergulhar tão profundo, mas é necessário entender um pouco o conceito nas épocas e línguas em que o Antigo e Novo Testamentos foram escritos (vou usar agora AT e NT, para me referir aos dois Testamentos).

Em tempos muito antigos, nos lugares da fala grega, a pessoa responsável por levar uma mensagem era chamada de angelos, que significa mensageiro (de onde vem a palavra anjo, em português). O angelos era responsável por euangelízomai “trazer boas novas”, “proclamar boas notícias”, ou simplesmente, “proclamar”, considerando que algumas notícias não eram tão boas. Daí vem também o substantivo grego euangélion, “boas novas”, que em nosso português ficou evangelho e se refere tanto a “recompensa” paga ao mensageiro que trazia a notícia da vitória quanto a própria “mensagem”, se tornando um termo técnico para “mensagem da vitória”. Nos tempos de Aristófanes e Homero, também se usava para questões políticas e, por vezes, receber o euangélion resultava em atos de adoração, em gratidão aos deuses (Coenen e Brown, 2000, p. 758).

Embora a palavra euangélion e suas variantes ocorram em o NT 127 vezes[1] (Idem, p. 760), o sentido religioso nas Escrituras difere significativamente do grego secular. Nem a motivação é a mesma quando a palavra é usada na Bíblia (Kittel e Friedrich, 2013, p. 294-295). Em Marcos 1:1 está escrito “princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus.” Aqui a boa notícia é a que percorre todo o NT e está ligada não a algo trivial ou a vitória militar, muito menos a uma recompensa ao mensageiro (angelos), mas sim a salvação, redenção e Reino de Deus. Vamos recuar um pouco no tempo para entender melhor.

O AT foi escrito em outra língua, mas a mesma ideia está presente. A raiz hebraica bśr aparece 30 vezes e na maioria delas no contexto militar, como por exemplo, em 1Rs 1:42 “Falava ele ainda, quando chegou Jônatas, filho do sacerdote Abiatar. E Adonias lhe disse: Entre, pois um homem digno como você deve estar trazendo boas notícias!” (VanGemeren, 2011, p. 751). O mensageiro chegando do campo de batalha, segundo John Oswalt (Harris et al., 1998, p. 227), “encontra-se no âmago dos usos mais teologicamente fecundos em Isaías e Salmos. Aqui é o Senhor que é vitorioso sobre os seus inimigos.” Como no Sl 68:11-12 “O Senhor anunciou a palavra, e muitos mensageiros a proclamavam (bśr): Reis e exércitos fogem em debandada; a dona de casa reparte os despojos.”

Em Isaías, onde a palavra ocorre sete vezes, encontramos o texto que é aplicado ao profeta João pelos três evangelistas (Mc 1:2-3; Lc 3:4-6; Mt 3:3), reconhecendo nele o cumprimento de que prepararia o caminho do Senhor, anunciando que a restauração estava chegando,[2] o que, na proclamação do profeta, inicia uma nova era, conforme descrito nas palavras de Is 52:7 “Como são belos nos montes os pés daqueles que anunciam boas novas (bśr), que proclamam a paz, que trazem boas notícias (bśr), que proclamam salvação, que dizem a Sião: O seu Deus reina!”

O teólogo escocês Frederick Bruce, em O Cânon das Escrituras (2011, p. 113) afirma que

Antes que o termo ”evangelho”… viesse a ser atribuído a qualquer dos quatro evangelhos (ou a uma das últimas outras obras do mesmo gênero literário), ele significava (1) as boas-novas do reino de Deus pregadas por Jesus, (2) as boas-novas a respeito de Jesus pregadas por seus seguidores após a primeira páscoa e pentecostes, (3) o registro escrito das boas-novas em voga numa localidade específica e (4) o quádruplo evangelho.

Nesse primeiro sentido destacado pelo Bruce, Jesus se refere às boas novas em Mc 13:10 “E é necessário que antes o evangelho seja pregado a todas as nações.” Ele estava trazendo uma nova mensagem, que deveria ser proclamada a todos, a mensagem de redenção para o qual João preparou o caminho (Mc 1:1-3) e no aparecimento de Jesus, encontrou seu cumprimento. A notícia de Jesus repercutiu muito e a singularidade dos termos em que ela se dava, fazia com que, nas palavras bem-humoradas de Adolf Pohl (1998, p. 42),

Não passavam quinze minutos sem que o pregador tivesse de responder a perguntas e mais perguntas: Quem era este que fora pendurado num tronco? De onde ele era? Por que morrera desse jeito? O que ele fizera? O que ensinava?

Depois da ressurreição, a vinda do Messias e obra da redenção deveriam ser proclamadas a todos, como Jesus comissionou em Mc 16:15 “E disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas.” Quem se propunha a levar esta mensagem se tornava, nesse contexto, evangelista (euaggelistés). Não no sentido de ministro evangelista, mas essa palavra é derivada de euangélion e que tem o sentido de “arauto de boas novas; arautos da salvação” (Taylor, 2011). Lucas diz que uma das atribuições ministeriais do diácono Filipe era ser evangelista (At 21:8) e Paulo afirma que o Espírito separa alguns para evangelistas (Ef 4:11). Ele exortou Timóteo a que agisse como um evangelista (2Tm 4:5). Ser proclamador da boa notícia é resultado da transformação que o encontro com esse evangelho causa.

Os outros dois significados do evangelho a que se refere Bruce, têm um aspecto canônico[3] e se consolidou como conhecemos já pouco depois da escritura de João, no fim do séc. I. Esta referência inicial era ao “Evangelho” como um relato único e os quatro escritores apresentavam seu ponto de vista sobre essa boa notícia. Por isso era escrito como “Segundo Mateus”, ou seja, “O Evangelho Segundo Mateus”. Veremos mais sobre o cânon na seção seguinte.

Nos primeiros dois significados apresentados por Bruce, encontramos a essência de nossa relação com o evangelho: receber Jesus e a boa notícia que Ele deu a Zaqueu, que veio buscar e salvar o perdido (Lc 19:10) e ser o meio para que outras pessoas O conheçam. Viveremos esta espiral evangelística até o momento em que estaremos face a face com autor e consumador de nossa fé, o Evangelho, a Boa Notícia, Jesus

[1] A raiz da palavra grega ocorre 134 vezes (Logos Bible Software).

[2] Is 40:3-5. No v. 9 está escrito “Você, que traz boas novas (bśr) a Sião, suba num alto monte. Você, que traz boas novas (bśr) a Jerusalém, erga a sua voz com fortes gritos, erga-a, não tenha medo; diga às cidades de Judá: Aqui está o seu Deus!”

[3] Cânon é uma palavra grega que significa “vara” e vem para nós com o sentido de regra ou modelo. É usada para descrever o conjunto de livros que são reconhecidos como inspirados, estão na Bíblia e servem de regra de fé e prática dos cristãos.

Referências: BRUCE, F. F. O Cânon das Escrituras: como os livros da Bíblia vieram a ser reconhecidos como Escritura Sagrada? São Paulo: Hagnos, 2011; COENEN, L. e BROWN, C. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000; HARRIS, R. L. Et al. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998; KITTEL, G. e FRIEDRICH, G. Dicionário Teológico do Novo Testamento. São Paulo: cultura Cristã, 2013; TAYLOR, W. C. Dicionário do novo Testamento Grego. Rio de Janeiro: JUERP, 2011; VANGEMEREN, Willem A. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2011

Referência do texto

SOUZA, Jafé C. O Evangelho: entenda o significado da boa notícia. Pastorjafe.com, 2026. Disponível em: <https://pastorjafe.com/o-evangelho-entenda-o-significado-da-boa-noticia/>. Acesso em:

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Jafé Chaves é pastor da Igreja Adventista do Sétimo dia há mais de 20 anos. Casado com a psicóloga e pedagoga Aline Damasceno e pai de Rafael, é bacharel em teologia e acadêmico de jornalismo. Recentemente tem se dedicado a publicar seus estudos dos sermões, como mais uma ferramenta kerygmática (da pregação) do evangelho.